Colapso-647x559Há poucos dias, Cláudia Sender, presidente da LATAM para o Brasil, disse que a “indústria da aviação está em estágio de coma” (veja: http://oglobo.globo.com/economia/industria-da-aviacao-esta-em-estagio-de-coma-diz-presidente-da-latam-19629746).

A APPA – AOPA Brasil concorda com Claudia. Alias, o certo seria dizer que finalmente alguém das companhias aéreas fala, publicamente, o que nós temos dito há alguns anos.

O que nos diferencia de Claudia Sender, é que como pilotos e proprietários de aeronaves, membros de uma associação majoritariamente formada por empresários, profissionais liberais e pilotos (ou seja, gente que não depende da concessão do Estado para voar), pudemos sempre dizer com todas as letras o que pensamos. Sem temer represálias, apesar de as termos enfrentado.

A APPA-AOPA Brasil, mesmo atuando institucionalmente junto com todos os órgãos gestores da aviação civil brasileira, nunca se omitiu à verdade, por mais dura e direta que fosse.

Agora, o discurso ganha uma aliada de peso. Um ente concessionário finalmente diz o que temos dito há muitos anos: a aviação civil brasileira está caminhando a passos largos para o colapso. Enquanto outras companhias aéreas e taxis aéreos continuam quietos, preferindo reproduzir a velha fórmula das conversas de gabinete e discursos a portas fechadas em busca de acordos pontuais que tentem resolver, o que para muitos, já se tornou insolúvel. A APPA-AOPA Brasil reitera abaixo alguns fatores que têm contribuído para a falência do setor aéreo brasileiro, como um todo:

  1. Nunca fomos, como país, pródigos em usufruir de uma política estratégica para um setor como a aviação. Alias, planejar e executar não é um dos talentos brasileiros. Somos craques do remendo, bons de conversa e pernas de pau na execução. Como a aviação é um setor que não perdoa o amadorismo e a gambiarra, até Claudia Senders chegou num ponto em que se dispõe a falar em público aquilo que até poucos meses atrás ainda era melhor ser dito reservadamente, enquanto se tentava encontrar soluções que resolvessem problemas particulares, não setoriais. Pelo visto, a estratégia da conversa miúda não resolveu. A falta de coragem de encarar o público com a verdade, que pautou a falta de uma postura clara e combativa do segmento, contribuiu para nos trazer até aqui.
  2. Combinado com o espírito amador com que o Brasil sempre levou sua aviação, pelo menos nas últimas 3 ou 4 décadas, o setor aéreo foi vítima dos últimos 13 anos de completo amadorismo, desmando e corrupção patrocinado por todos os trágicos governos petistas. Em que pese o fato da APPA-AOPA Brasil nunca ter manifestado qualquer preferência partidária e levando em conta que a nossa Associação não advoga a favor de qualquer político, o fato é que a aviação brasileira foi atacada frontalmente pela ignorância absoluta de um governo centralizador, comprovadamente corrupto e incapaz de compreender as características de um setor tão complexo como a aviação.
  3. Quem ainda sobreviveu a esse estado de coisas, no Brasil, foram os abnegados e os extremamente profissionais. Quem reúne essas duas qualidades. Mesmo os mais profissionais desistem do setor aéreo por não ter na paixão pela aviação, transformada em abnegação, combustível para ter paciência de lidar com tanto amadorismo, desvios de conduta e incapacidade intelectual de quem deveria liderar o país.
  4. E onde residiu tanto amadorismo e desmandos, durante todo esse tempo? No topo da cadeia decisória do país. A começar pelo Gabinete da Presidência da República, passando por todas as autoridades diretamente envolvidas no total desprezo ao entendimento do setor aéreo, das suas características e necessidades. Sem rumo estratégico para o setor aéreo, com o Comando da Aeronáutica hierarquicamente subordinado a uma cadeia de comando capitaneada pela boçalidade, a Agência Nacional de Aviação Civil sequestrada por interesses de governo (descumprindo suas prerrogativas de órgão de Estado) e com invenções do tipo da SAC (Secretaria de Aviação Civil) transformada em ministério, é lógico que as coisas não acabariam bem. Como se pode observar no diagnóstico de Claudia Sender.
    • A nomeação de amadores, apaniguados políticos e gente desqualificada para a ANAC foi só o mais evidente sinal do desprezo com que os governos recentes trataram do setor. Embora não fosse necessário, porque a Lei que criou a ANAC já prevê requisitos para a nomeação dos seus diretores, fosse aplicável à Agência, a Lei aprovada há poucos dias, proibindo a indicação pelo governo de desqualificados para cargos estratégicos, muito provavelmente quase todos os atuais diretores da ANAC teriam que ser imediatamente exonerados. Caso a ANAC não possuísse, em seus quadros técnicos, gente qualificada técnica e moralmente, a situação seria ainda pior, pois não é na Diretoria que a Agência pode se inspirar para buscar gerir o presente e o futuro do setor. O mesmo vale para o DECEA, para a Infraero e para os Departamentos Aeroviários Estaduais.
  5. O Brasil literalmente se desligou do resto do planeta em termos tecnológicos. A quem restar dúvida, basta observar as manhãs de junho e julho: aeroportos como Congonhas, Galeão, Santos Dumont e Guarulhos permanecem fechados por horas, por causa de nevoeiros. A falta de investimentos em tecnologias já consagradas há décadas pelo mundo civilizado faz com que brasileiros se sujeitem a restrições que cidadãos que pagam impostos, nas mesmas proporções do que nós, não estão sujeitos, há muitos anos. As mesmas aeronaves de empresas aéreas, taxis aéreos e particulares, que no Brasil ficam impedidas de pousar ou decolar em dias de nevoeiros, operam normalmente debaixo de neve, calor escaldante e ventos fortíssimos, em todo o resto do mundo civilizado. Por que isso ocorre? Porque o Brasil foi “desplugado” do resto do planeta do ponto de vista tecnológico.
  6. As empresas aéreas estão amargando prejuízos bilionários consecutivos por causa desses desmandos e agora se sentem com coragem de vir a público falar a verdade? Pois a frota brasileira da Aviação Geral, uma das maiores do mundo, está praticamente paralisada. E esse movimento vêm ocorrendo há anos, de forma brutal, sem que nada fosse feito para reverter a situação. Sistemas de tráfego aéreo desatualizados, equipamentos aeroportuários inoperantes ou inexistentes, taxas absurdas, desmandos na gestão da infraestrutura, desligamento ou precariedade de radares meteorológicos são só algumas das consequências concretas da falta generalizada de estratégia e políticas estruturadas para um setor tão importante e complexo como o da aviação.

O que, então, podemos fazer, além de reclamar?

O que temos feito há anos: buscando encontrar e trabalhar com as pessoas dos órgãos gestores que, apesar da falta de recursos intelectuais, técnicos e financeiros do topo decisório do segmento no Brasil, ainda fazem com que as coisas não tenham parado de uma vez. Ao mesmo tempo, brigando com todas as forças que temos para fazer a sociedade se sensibilizar sobre o fato que um segmento como o da aviação não pode continuar sendo negligenciado pelo governo e tocado por amadores, indicados políticos e gente mal intencionada. Esse é um ramo que só aceita profissionais.

Se algo não for feito rapidamente pelo governo interino para, pelo menos, recolocar a aviação brasileira no rumo, precisaremos de pessoas como Cláudia Sender se reunindo com os dirigentes de outras empresas aéreas (que ainda estão calados), assim como os dirigentes dos grandes taxis aéreos, os comandantes das polícias militares estaduais, os militares da Força Aérea Brasileira e os técnicos respeitáveis da ANAC, para aplicar uma enorme pressão em todo o sistema, para que algo se mova. Não esperem o colapso total para se unir ou tomar providências e se pronunciar quando pouco ou nada mais puder ser feito, ou ainda, sendo mais drástico (Deus nos livre), quando os desmandos e o amadorismo vierem à produzir mais cadáveres, provocando acidentes aéreos que poderiam ter sido evitados, se o setor fosse comandado por profissionais.

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