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Matéria publicada na Folha de São Paulo e UOL de 31 de Janeiro de 2014 (http://senhorespassageiros.blogfolha.uol.com.br/2014/01/31/cai-numero-de-acidentes-aereos-no-brasil-aviacao-geral-ainda-e-a-vila/), assinada pelo jornalista Ricardo Gallo, traz o título "Cai número de acidentes aéreos no Brasil; aviação geral ainda é a vilã".

Essa matéria, como várias outras divulgadas no mesmo período, repercutem informações transmitidas pelo Cenipa que apresentou balanço dos acidentes aéreos no país em 2013.

Como a APPA - AOPA Brasil já fazendo há alguns anos através de interlocução com os Órgãos Gestores da Aviação brasileira, parece ter passado da hora da sociedade brasileira contar com análises mais detalhadas e criteriosas a respeito de um assunto tão relevante quanto a segurança da aviação. Os órgãos responsáveis pela segurança da aviação devem isso a sociedade e há muitos bons exemplos a seguir. Basta ter disposição para isso. A APPA já demonstrou e se dispôs a contribuir.

Alguns pontos que tiveram repercussão na mídia merecem maior análise e aprofundamento, sob pena de se transmitir à opinião pública uma imagem no mínimo imprecisa da situação. São eles:

  • Comparar os níveis de segurança da Aviação Comercial Regular com a Aviação Geral (agregando nessa categoria tudo que não é aviação regular), da forma como se expôs, é uma opção de análise questionável. Corre-se o risco de comparar bananas com laranjas e com isso não ir ao cerne da questão. Como consequência se pode criar desinformação e não esclarecimento, o que não interessa a ninguém.
  • Segundo a reportagem informou, ocorreram no Brasil "72 mortes no ano passado, seis a menos do que no ano anterior". O risco de se tentar tirar conclusões com base em números absolutos, isolados, é grande. Por lógica, como um exemplo, bastaria um monomotor com sete ocupantes ter sofrido um acidente e levado a morte todos a bordo que o raciocínio inteiro seria outro (a Aviação Geral brasileira teria sido menos segura em 2013 do que em 2012). Seria essa conclusão verdadeira?
  • Ainda seguindo o mesmo caminho, se não tivesse havido nenhum acidente com a Aviação Geral, mas um só, envolvendo um jato de grande porte da Aviação Comercial e todas as conclusões teriam que ser diferentes. Por essa razão (entre outras) e pelo bem da análise da segurança de voo, não convém se misturar muito a realidade da Aviação Comercial e da Geral, muito menos estabelecer comparações baseadas no número de vitimas fatais.
  • Em países onde a Aviação Geral tem sua segurança estudada em profundidade - e isso não ocorre no Brasil, por falta de recursos, interesse e dados - o número de vítimas fatais é um dos dados de uma complexa equação, mas não o único. Indicadores que realmente ajudam a entender o que se passa são sempre fundamentados na relação do número total de horas voadas, número total de voos, cruzados com acidentes, incidentes graves e incidentes, tudo analisado de forma relativa e com comparações históricas sólidas, por categoria de aviação. 
  • Algumas operações aeronáuticas são mais arriscadas do que outras. Isso ocorre por inúmeras razões. Quando se agrupa tudo numa categoria só (Aviação Geral), é inevitável cometer erros de análise e se tirar conclusões incorretas. Assim, da mesma forma que se deve relativizar o número de acidentes e incidentes por horas voadas ou decolagens, deve-se sempre analisar a segurança da aviação por segmentos do setor e não como um todo. No mínimo se deve analisar separadamente o que são acidentes relacionados a Aviação de Treinamento, Aviação Agrícola, Aviação Privada, Desportiva e de Taxi Aéreo, separadamente. 
  • A experiência dos tripulantes também é um dado primordial para se compreender o que está ocorrendo e o que deve ser feito para se evitar fatalidades. Como em qualquer atividade, as chances de se cometer erros que podem causar acidentes são maiores entre os menos experientes.
  • No mundo todo, há décadas, as empresas aéreas regulares vêm investindo bilhões de dólares em pesquisas e medidas que realmente reduziram de forma muito significativa os riscos das suas operações. Isso não é obra brasileira e não são segredos. Quem é do meio sabe o que se tem feito globalmente e também no Brasil, pelas empresas aéreas. Isso é uma excelente notícia.
  • Da mesma forma, em países como Estados Unidos, Canadá, na Europa, na Austrália e Nova Zelândia, ações vêm sendo tomadas para tratar com mais cuidado da Aviação Geral, por segmento. Os Órgãos Gestores desses países já mapearam adequadamente esse cenário, definiram políticas e as estão aplicando. O objetivo, no final das contas, é reduzir os riscos nas operações do setor aeronáutico que mais cresce em todo o mundo, inclusive no Brasil, a Aviação Geral.

Essa providências envolvem, entre outros fatores:

  • A disponibilização de mais recursos para o treinamento de tripulantes em sintonia com as novas tecnologias de navegação
  • A rápida adoção de normas lógicas, que melhoram a proficiência dos pilotos e a qualidade das aeronaves 
  • A melhoria no diálogo entre agentes reguladores e regulados. A grande maioria dos operadores da Aviação Geral são pessoas de bem, que usam aeronaves para aumentar a produtividade dos seus negócios ou a lazer, de forma responsável. Órgãos Gestores mais eficazes são aqueles que buscam dialogar melhor com pilotos e proprietários de aeronaves; Mais diálogo, menos acidentes. Mais fiscalização não é certeza de redução de acidentes. Mais diálogo, tecnologia e apoio, sim. As empresas aéreas não têm aumentado seu nível de segurança só por causa de fiscalização, mas porque chegaram a conclusão que era possível e lucrativo caminhar nesse sentido.
  • Facilitar a compra e o uso de tecnologias que aumentam o nível de conhecimento dos pilotos, facilitam as operações e evitam a exposição a situações de risco. Nos Estados Unidos há um plano em execução exatamente nesse sentido: modernizar a frota da aviação geral o mais rapidamente e da forma mais barata possível
  • Divulgar dados e análises sobre segurança de forma organizada, qualificada e estruturada. Informação bem analisada ajuda pilotos e proprietários de aeronaves a tomarem decisões melhores. Afinal, todos querem estar vivos, voar cada vez mais e melhor.

Infelizmente grande parte dessas providências não está na pauta dos Órgãos Gestores brasileiros. Pelo menos não de maneira articulada e que se consiga enxergar para quem é do ramo. Aeronaves são meios de transporte comprovadamente seguros, quando estão sendo usados dentro dos limites para os quais foram projetados e são conduzidos por pessoas qualificadas para o tipo de atividade que estão realizando.

A divulgação, mais uma vez, de dados isolados sobre a segurança aérea, com pouca ou nenhuma análise aprofundada é prova da falta de interesse e política real de segurança para as operações da Aviação Geral. A má informação é também o meio mais fácil para induzir o Brasil a regredir também nisso, enquanto o mundo busca avançar e disseminar tecnologias e meios de transporte cada vez mais baratos e seguros.

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