Nós que vivemos no Brasil que gosta - mas não necessariamente precisa - de avião para viver, talvez não consigamos entender todo o cenário que envolve a atividade aérea no meio da Amazônia e próxima das fronteiras de nosso país.

Recentemente, tive a oportunidade de acompanhar o Twin Otter em voos de avaliação pelo Exército Brasileiro na região da Cabeça do Cachorro, próximo a São Gabriel da Cachoeira, no estado do Amazonas. Tive que estudar um pouco a operação na região para poder ajudar os pilotos canadenses da fábrica, que eram os responsáveis pelos voos junto à equipe do Exército.

Quando recebi o briefing da operação pretendida, tomei o primeiro susto. Parte das pistas propostas estavam com suas operações suspensas por NOTAM ou tiveram seu registro cancelado. A enorme maioria das pistas de terra que estavam operacionais têm em seu registro o limite de 2.500 kg para o peso das aeronaves, o que nos restringiu o número de localidades que poderíamos operar. Legal foi explicar para os canadenses este cenário, e que no Amazonas temos apenas 4 localidades com combustível para aeronaves civis: Manaus, Tefé, Tabatinga e São Gabriel da Cachoeira, que ficam a aproximadamente 2 horas de voo de Twin Otter entre si.

Passada a fase de análise da infraestrutura, vamos dar uma olhada nas cartas e NOTAMS. Algumas surpresas: Tefé e São Gabriel da Cachoeira não têm procedimentos RNAV – e, para ajudar, Tefé está com o VOR fora de serviço. Em São Gabriel da Cachoeira, além do NDB fora de serviço, o balizamento noturno está inoperante.

Contei com a ajuda de um dos maiores especialistas na região, o pessoal da CTA Táxi Aéreo de Manaus. Depois de muito analisar e calcular vamos ao briefing com os canadenses. Experiência antropológica memorável tentar explicar esse cenário e encaixar o que é possível ser feito respeitando as regras e as exigências da seguradora do avião.

Seguimos nosso voo para São Gabriel da Cachoeira, e lá somos recebidos pelo General Bandeira, comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva, que nos dá uma aula sobre a região, as etnias de quem lá vive, e os desafios do Exército Brasileiro na região, e nos contou sobre a necessidade e a importância do avião nessa missão. Resumindo: as distâncias são grandes, sem estradas, e com rios que têm trechos não navegáveis. Nada é fácil por lá.

Estão subordinados à 2ª BIS sete Pelotões Especiais de Fronteira (PEF’s): são postos avançados do Exército próximos às fronteiras com a Colômbia e a Venezuela, onde praticamente toda a logística depende do avião. O serviço mais pesado é feito pelos Casa 295 da FAB, mas nem toda a demanda é atendida. Assim, o Exército contrata empresas de táxi aéreo para complementar o serviço.

Entendemos que o avião é importante quando faz a diferença na vida das pessoas. Significa muito para esses soldados saber que, se precisarem, eles poderão contar com um avião para apoiá-los, já que estão no limite do Brasil em vários sentidos da palavra. O avião leva comida, remédios, médicos, combustível, as notícias; leva e traz as pessoas; é o principal elo para quem vive uma realidade difícil, que mexe com a cabeça das pessoas - lembrando que nos PEFs vivem os militares e suas famílias.

Voltando a falar de aviação, não consegui escapar da reflexão de por que as coisas são como são. O que faz com que uma região onde o avião é tão importante, onde a estrutura é de responsabilidade de diferentes órgãos governamentais (em sua maioria federais), não há um mutirão para solucionar os problemas, pequenos ou grandes, como a suspenção das operações de algumas pistas - ou mesmo atualizar a resistência do piso no ROTAER? Ou implementar procedimentos RNAV, que não dependem da operacionalidade dos radio-auxílios de tão difícil manutenção nessa região de acesso limitado, e mais uma série de pequenas coisas que poderiam ser feitas para ajudar na operacionalidade.

Voltei com a certeza de que a presença do Estado é fundamental para que essa área do Brasil continue protegida, mas as instituições deste mesmo Estado precisam se coordenar para que a aviação possa cumprir seu papel.

O Exército tem a missão dele, e luta diariamente para viabilizar seu trabalho, com todas as restrições que lhe são impostas. Mas os demais elos da cadeia têm que funcionar! É triste ver que parte do problema é papel, e falta de foco e de coordenação das diferentes autarquias públicas. A velha burocracia brasileira travando a operação e, por consequência, atingindo a vida de quem depende do avião.

Fonte: PSP (Autor: Daniel Torelli)

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