chapecoA AOPA Brasil, seu Conselho de Administração e Diretoria, que desde 1.972 representa pilotos e proprietários de aeronaves no Brasil, externa sua mais profunda solidariedade para com as famílias e a comunidade esportiva e jornalista.

Nós e outras mais de 70 entidades do grupo internacional de associações de pilotos e proprietários de aeronaves, do qual fazemos parte, dedicamos, voluntariamente, parte expressiva da nossa energia de trabalho e conhecimento para fazer da aviação um ambiente cada vez mais próspero e seguro.

Fomos, todos nós, formados na aviação ao longo de um tempo onde o processo de investigação e prevenção de acidentes aéreos dependia de recursos bastante limitados. Encontrar e decodificar, por exemplo, os dados de uma “caixa preta”, ou de um “gravador de voz da cabine” era condição fundamental para que as autoridades responsáveis conseguissem montar o quebra-cabeças de uma ocorrência catastrófica. Tratavam-se de informações obtidas de forma relativamente rudimentar, muitas vezes prejudicadas por danos físicos aos instrumentos onde tais informações eram gravadas. Meses, anos, se passavam, até que se chegasse às prováveis causas das ocorrências.

Eram outros tempos.

Hoje, com a tecnologia embarcada das aeronaves e disponíveis na internet, de forma muitas vezes gratuita ou a custos irrisórios, essa realidade mudou. A revolução digital impactou a vida da sociedade global e a aviação não está imune a esse fato. Em poucas horas, após o desaparecimento de aeronaves, em praticamente qualquer lugar do mundo, é possível acessar informações muito precisas sobre planos de voo, trajetórias planejadas e percorridas pelas aeronaves, altitudes, velocidades, rumos, gravações de comunicações entre pilotos e controle de tráfego aéreo, informações sobre a aeronave, meteorologia e praticamente tudo que, até alguns anos, se levava décadas para descobrir, muitas vezes de maneira precária, de forma reservada aos especialistas.

Tendo isso em vista, a tragédia que ocorreu na Colômbia com a aeronave que transportava a delegação do Chapecoense não pode ser tomada como um acidente, apenas. Foi muito mais do que isso. A tragédia demonstra evidências que elementos graves, inaceitáveis para aviadores, podem estar relacionados diretamente ao desfecho catastrófico do voo 933.

Acidentes acontecem quando alguma coisa ultrapassa a barreira da irreversibilidade, seja por erro, mau funcionamento técnico, ou fatores externos, como inoperância de infraestrutura ou mesmo meteorologia extrema.

A se confirmarem as – até agora bastante prováveis – situações que envolveram o voo a Medellín, vemos que a taxa de risco aceita pela empresa nessa operação estava muitos pontos abaixo de níveis decentes, aceitáveis. Tal era a situação, que uma simples espera fez com que o combustível da aeronave chegasse ao fim. Naquele momento em que os motores deixaram de funcionar começava uma história que deverá ter desdobramentos muito além da busca por responsáveis por essa mostra de incompetência, negligência, imprudência e desprezo pelas mais elementares normas de segurança.

A AOPA Brasil sempre defenderá a aviação, sempre defenderá os aviadores, sempre defenderá os princípios que norteiam a atividade aérea. E jamais deixará de apontar erros para que possam ser corrigidos, para que o sistema se aprimore. Por outro lado, jamais aceitará que atitudes irresponsáveis venham conspurcar tão nobre atividade.

Erros devem ser entendidos e corrigidos. Violações devem ser, depois de comprovadas, severamente punidas, afastadas, eliminadas da atividade – assim como seus responsáveis.

No caso em questão, a se confirmar o que os indícios já mostram, estão presentes várias e repetidas violações. Estão presentes, além do profundo desprezo pela segurança operacional, o inaceitável desrespeito aos passageiros. Mas não apenas isso.

Por aritmética simples e estudo básico da rota percorrida, pode-se afirmar que essa aeronave já se encontrava fora dos limites mínimos regulamentares de autonomia, para esse tipo de operação, pelo menos uma hora antes do desfecho catastrófico, quando ainda havia não uma, mas inúmeras alternativas de pouso seguro para reabastecimento.

Essa empresa iniciou suas atividades na Venezuela e, depois de não conseguir decolar na atividade, transferiu sua sede para a Bolívia. A pergunta que precisamos que seja respondida é simples: quem e por que concedeu autorização para que tudo isso fosse possível?

Outras perguntas, também simples:

Como eram fiscalizadas, se eram, a operação e a manutenção da empresa e sua aeronave?

Como foi aprovado um plano de voo com tamanha inconsistência?

Quem era o responsável pelo padrão operacional da companhia?

Quem assinou embaixo da autorização para que isso tudo existisse?

Como uma entidade que cuida de futebol nacional e outra, regional, indicam, aceitam e avalizam que pessoas sob sua esfera de responsabilidade sejam transportadas dessa forma?

Quem contrata um transporte desse nível? Não sabe o que está contratando? Ou contrata exatamente porque sabe?

Muitas outras perguntas procuram respostas. Dentre elas:

Quem será responsabilizado por essas perdas? Quem responderá por esses crimes?

Crimes, pois não é difícil tipificar alguns em toda essa história. A contumácia na negligência, a exposição de aeronave ao perigo (Código Penal, artigo 261 e parágrafos). Mas precisamos ir além, precisamos buscar quem deixou que ocorressem.

Não podemos aceitar que crimes fiquem impunes. Aceitar é ser cúmplice desses e dos próximos.

Em respeito e solidariedade aos familiares e amigos de todas as vítimas do voo 933, é indispensável que as autoridades (técnicas e judiciárias), e a imprensa investiguem e tragam a público as razões, o contexto e os envolvidos na contratação dos serviços prestados por essa estranha empresa que, obviamente, não detinha procedimentos operacionais minimamente estruturados para oferecer transporte aéreo em segurança para ninguém.

A AOPA Brasil se solidariza com as famílias e lamenta que a sociedade ainda pague preços tão altos em vidas humanas por ações e omissões de quem está investido de autoridade exatamente para evitar que isso aconteça. É hora de agir, em respeito aos que se foram brutalmente, aos feridos que convalescem em hospitais, aos socorristas que enfrentaram certamente o pior momento das suas vidas e aos familiares que ficarão, para a vida toda, marcados por esse ato deliberado que de forma alguma, sob nenhum aspecto, guarda qualquer relação com a aviação pela qual a AOPA Brasil e aviadores, no mundo todo, trabalham.

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