Como brasileiro e aviador, a primeira impressão de quem escuta que o Brasil é hoje um dos maiores (senão o maior) exportador de aviadores para o mundo não é boa. Logo vêm à cabeça que a nossa aviação anda de lado, formando mais gente do que é capaz de absorver. Desperdício, excesso de mão de obra com falta de oportunidades gera pressão negativa sobre as remunerações, diminuição no poder de barganha de quem voa, instabilidade. De fato isso é real, mas não é toda a realidade. É a metade vazia do copo.

Parando para pensar um pouco mais a respeito, podemos olhar para isso pela metade cheia do mesmo copo. Primeiro, podemos concluir que o Brasil formou e ainda forma gente boa na aviação. Sabe-se que as fileiras de aviadores brasileiros voando em empresas aéreas estrangeiras de primeira linha, especialmente no Oriente, é enorme. Os salários são elevados e a relação de trabalho, em muitos casos, é por contratação de longo prazo. Há comandantes brasileiros chefes de equipamentos em linhas aéreas, voando aeronaves particulares de todos os portes e dando instrução pelo mundo. Numa economia cada vez mais exigente e conectada, saber que o país foi e continua sendo capaz de exportar brasileiros qualificados para o mercado de trabalho internacional é uma boa notícia.

E isso poderia ser ainda melhor se, de novo, como temos insistido tanto nas ações institucionais da APPA, o país contasse com uma estratégia articulada para a sua aviação.

A APPA tem estado em contato com diversas Escolas de Aviação e Aeroclubes no Brasil, com o intuito de conhecer melhor a realidade atual da formação aeronáutica no Brasil. Não há como negar que o rol de reclamações e incertezas é muito maior do que o de comentários positivos e oportunidades.

No entanto, a APPA tomou conhecimento, nos últimos dias, que há companhias aéreas internacionais buscando desenvolver pólos alternativos de formação de tripulantes, particularmente no Brasil, com Escolas brasileiras. Pode ser que estejamos vendo aqui um ciclo virtuoso raro: já que nos cockpits de muitas aeronaves matriculadas nos Emirados Árabes, Qatar e China estão brasileiros sentados à esquerda, logo nossa formação deve ser de qualidade.

Nesse contexto, a APPA descobriu que se a ANAC passasse a oferecer seus testes teóricos na língua inglesa e agisse no sentido de organizar a recepção de estrangeiros para formação por aqui, muitas das nossas Escolas poderiam receber um impulso extra nas suas atividades. O Brasil poderia, sim, ser um exportador de aviadores qualificados, estaríamos exportando serviços de alto valor agregado, gerando receitas em dólar, reforçando a nossa posição no cenário da aviação mundial, nos integrando ao mercado de trabalho da aviação internacional.

E isso não valeria só para a Aviação Comercial, mas também para a Aviação Geral e Executiva, bem como Agrícola. É claro que para isso a ANAC precisaria estar preparada para atender a demanda, implantando procedimentos para aviadores em instrução no Brasil que sejam aceitáveis (o que por tabela beneficiaria a todos os pilotos brasileiros, que ainda sofrem com a renovação de licenças e habilitações). E não valeria só para estrangeiros, mas para brasileiros também.

SAC, Apex, Ministério das Relações Exteriores, ANAC: prestem atenção nisso! Enquanto o Brasil é lanterninha em praticamente todos os campeonatos de matemática do mundo, nossa educação em geral é precária, nossas universidades não estão nos rankings mais prestigiados do mundo, nossa base de formação de aviadores ainda tem qualidade reconhecida internacionalmente, apesar de todas as dificuldades que enfrentam! Que tal nos mexermos para interromper esse desperdício e começar a fazer disso um case de que o Brasil, pode, sim, exportar profissionais de qualidade exemplar para a aviação mundial?

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