O acidente aeronáutico que envolveu famosos apresentadores de televisão, seus familiares, funcionários e aviadores, ocorrido no dia 24 de Maio em Mato Grosso do Sul, traz à tona concretamente um dos debates que a APPA vem insistindo em levar adiante no Brasil, junto as principais autoridades aeronáuticas: como aumentar, efetivamente, os padrões de segurança operacional da Aviação Geral.

Como o acidente em questão mostrou, enquanto se achar que Segurança Operacional é produto de papelada e ações fiscalizatórias inócuas, aeronaves continuarão a sofrer acidentes, pessoas se machucarão ou perderão suas vidas e propriedades serão destruídas. A aeronave envolvida no acidente de domingo, segundo registros da ANAC, encontrava-se em situação regular, assim como seus tripulantes e a empresa de Taxi Aéreo a qual pertencia e estavam vinculados. Por que uma aeronave com bom histórico de segurança, operada por um Taxi Aéreo regularmente autorizado a exercer tais funções pela Agência Reguladora, pilotado por aviadores habilitados corretamente, sofre um acidente que até onde se pôde observar, só não teve consequências catastróficas por habilidade técnica dos seus tripulantes e sorte?

Coincidentemente, na semana passada, representantes da APPA estiveram reunidos na ANAC, em São Paulo, para participar da constituição do BGAST (Grupo Brasileiro de Segurança Operacional para a Aviação Geral). Clique aqui e acesse documento apresentado pela ANAC sobre o tema. No encontro, observou-se que a ANAC está sensível ao tema da Segurança Operacional para a Aviação Geral, o que por si só pode ser considerado uma boa notícia.

Contudo, também nessa seara, a APPA lamenta o atraso que assola o Brasil. Enquanto a comunidade aeronáutica brasileira continua sendo apresentada às antiquadas e repetitivas palestras de segurança promovidas pelo CENIPA, a análise rudimentar de dados sobre acidentes aeronáuticos, o resto do mundo civilizado evoluiu muito. Essa evolução, no campo da Segurança, poderia até ter sido acompanhada pelas autoridades brasileiras, porém sua desconexão com iniciativas internacionais nos mantém afastados dos modelos mais sofisticados de análise da segurança da aviação geral.

Há nada menos que 23 anos, a AOPA-EUA, nossa associação irmã norte-americana, desenvolveu e publica periodicamente o The Joseph Nall Report. Clique aqui e baixe a última versão.

Enquanto aqui, na reunião da ANAC escuta-se autoridades lamentar os acidentes e tratar os acidentados, de maneira geral, como “marginais”, inferindo possíveis conexões estatísticas entre acidentes e violações de regras, no Relatório norte-americano se lê que “a segurança dos voos comerciais da Aviação Geral continuam a melhorar. Ambos os indicadores de acidentes totais e acidentes fatais alcançaram seus menores índices em helicópteros, enquanto para as aeronaves de asas fixas as taxas estiveram muito abaixo das médias dos últimos 10 anos.”...”Os 165 acidentes fatais reportados (com aeronaves de asas fixas, não comerciais) no ano passado representaram uma queda de 24% em relação ao ano anterior”.

A categorização adotada pela AOPA-EUA e pelo Air Safety Institute dão indícios de como o problema da segurança é analisado por lá: os acidentes são tratados em categorias específicas, tratando de Aeronaves com Asas-Fixas isoladamente das de Asas Rotativas, Aeronaves para uso Comercial isoladamente das de uso Particular, tudo ponderado pela quantidade de aeronaves efetivamente operando em cada classificação dessa tanto em termos totais quanto em volume de horas voadas. Dentro de cada categoria dessa, acidentes fatais são tratados isoladamente, para se conhecer realmente qual segmento da aviação mais expõe pessoas a risco de vida. Adicionalmente, segmentos são minunciosamente tratados: tipos de aeronaves (quantidade de motores), propósito da operação, qualificação dos pilotos envolvidos, condições de luz e meteorologia.

Ou seja, as doenças (acidentes e mortes) são detalhadamente analisadas, com comparações históricas robustas, para que remédios certos possam ser encontrados e aplicados.

A APPA disponibiliza os relatórios a todos os interessados e estende (novamente) a possibilidade das autoridades aeronáuticas brasileiras acessarem as bases de dados da AOPA-EUA há 24 anos analisadas e usadas para melhorar indicadores de segurança. Afinal, para quem começar o projeto de uma roda, quando ela já existe em pleno funcionamento, há tanto tempo, no mundo civilizado? Como dizia o Comandante Rolim, “quem não tem capacidade de criar, deve ter coragem de copiar”. A APPA, como parte da comunidade aeronáutica brasileira, não tem vergonha alguma em assumir sua incapacidade de criar algo tão robusto para analisar a segurança da Aviação Geral brasileira, mas está disposta a trabalhar seriamente com as autoridades daqui em diante para copiar e melhorar o que já existe de bom pelo mundo.

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