A Folha de São Paulo de 01/03/2015 dá em seu caderno mercado a notícia "Operação Lava Jato trava concessão de aeroportos brasileiros". Leia: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/03/1596432-operacao-lava-jato-trava-concessao-de-aeroportos-brasileiros.shtml.

Em linhas gerais o que o Jornal demonstra é que as empreiteiras e construtoras que teriam capacidade técnica e financeira para participar de leilões de concessões, neste momento, estariam incapacitadas de participar de qualquer nova tentativa do governo conceder aeroportos à iniciativa privada.

A reportagem cita fonte próxima a Presidente Dilma que brinca dizendo que "quem não está na carceragem da PF em Curitiba, onde está centrada a Lava Jato, teme parar lá", atestando que a generalização da "trambicagem" que pauta a relação do governo com as empresas impede o governo de pensar em levar adiante qualquer projeto de melhoria de aeroportos.

A reportagem acerta ao trazer o assunto à pauta, mas erra ao atribuir o possível impedimento de construtoras participarem de leilões como o motivo principal para a interrupção das melhorias em aeroportos brasileiros.

Em maio de 2014 a APPA trazia em seu site a nota "Bom senso e informação técnica fazem bem, Presidente Dilma!" (http://www.appa.org.br/2014/05/21/bom-senso-e-informacao-tecnica-fazem-bem-presidente-dilma/), expressando claramente a opinião da Entidade: melhorar a rede de aeroportos inventando programas de investimentos e concessões, como previa o Plano de Logística: Aeroportos, não passava de bravata eleitoreira. Dito e feito.

Concedidos aeroportos críticos para que a Copa do Mundo se realizasse, obviamente nada mais foi feito e nem será. E isso não tem nada a ver com os impedimentos legais das possíveis concessionárias, mas com uma visão tecnicamente ignorante do governo sobre o que é, como deve ser gerida e aprimorada a rede já existente de mais de 700 aeroportos que estão sob a responsabilidade da União, Estados e Municípios, e que foi jogada às traças.

É lógico que a infraestrutura de atendimento aos mais de 100 milhões de passageiros consumidores de transporte aéreo regular continua precisando ser expandida e melhorada. Grandes terminais, em centros urbanos, precisam ser melhorados continuamente. Qualquer aeroporto decente do planeta trabalha hoje com planos contínuos de melhoria para os próximos 20, 30 anos. É assim em qualquer lugar onde haja gente com massa cinzenta entre as duas orelhas cuidando de aeroportos. Não é o caso do Brasil.

Mas o problema é muito maior do que esse: enquanto o governo divulgava um programa sem pé nem cabeça dizendo que construiria 800 aeroportos (que depois viraram 270 e que agora chegou a zero), todos os especialistas do setor perguntavam por que investir na construção de mais aeroportos se os existentes já não funcionavam direito, eram precários, muitas vezes inseguros e caros para os usuários?

Nunca nada disso foi respondido pelo governo simplesmente porque o governo não sabe fazer perguntas certas. E quem não sabe perguntar, sempre vai responder errado.

Em síntese, a Folha de São Paulo acerta ao diagnosticar a paralisação de melhorias em aeroportos no Brasil, mas ainda não percebeu que o problema é muito maior do que só não conseguir viabilizar a concessão dos Internacionais de Salvador e Porto Alegre. O que a Folha não sabe, nem o governo, é que há mais de 700 aeroportos abandonados no Brasil e que um governo decente deveria apresentar à sociedade o plano de preservação do patrimônio já constituído, antes de falar sobre qualquer outra coisa.

Não é a operação Lava Jato que paralisará a expansão e melhoria dos aeroportos brasileiros. A ignorância do governo também sobre esse tema já se encarrega de fazer isso há muito tempo.

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