aviacao-brasileira

"Não vamos desistir do Brasil". Com essa frase, o então candidato a Presidente da República, Eduardo Campos, saiu da vida e deixou um legado cujas dimensões ainda são incalculáveis.

Nem os mais respeitados analistas políticos conseguem prever os efeitos da trágica morte de Eduardo Campos no cenário eleitoral. Mas é um fato que o inesperado irá marcar, novamente, os rumos do Brasil.

A aviação já havia entrado na discussão eleitoral. O tema já estava sobre a mesa desde antes da Copa do Mundo 2014. O Governo, preocupado com possíveis danos eleitorais de um vexame do sistema aéreo durante o megaevento, parou a aviação. Não houve caos aéreo, é um fato. Mas para que o pior fosse evitado parou-se a aviação do país. Com a economia interrompida durante a Copa, a Aviação Comercial parou de transportar pessoas de negócios. A Aviação Geral, sujeitou-se a restrições operacionais jamais vistas, limitou-se a voar o estritamente necessário. Sem pressão ao sistema, não houve caos. Como disse o Presidente da ANAC, "enquadramos a aviação e da próxima vez enquadramos a seleção". Certo, Presidente, muito respeitosa as suas palavras. Sabemos quais foram as ferramentas usadas para que tal feito fosse alcançado.

Semanas depois a Aviação volta a rondar as eleições: em uma canetada, o Planalto edita uma mal-acabada medida preventiva que certamente será usada durante a campanha para dizer que está em curso um plano para a aviação regional. Sem ter feito nada de sólido além de conceder aeroportos que já não suportavam mais o tráfego aéreo, reeditou modelos atrapalhados de subsídio direto, com regras pouco claras, para anunciar que o Tesouro poderá injetar dinheiro, pagando por assentos vagos às empresas que ligarem regiões de baixa densidade com voos regulares. Um modelo estranho, a ser financiado com dinheiro de orçamentos futuros. Pouco provável que algum empresário sério confie nessa conversa. Mas eleitoralmente a ação foi preventiva: faz-se a Lei e quando isso for debatido nas eleições, tem-se resposta. Por mais esfarrapada que seja.

Quase que simultaneamente surge uma denúncia sobre um Aeroporto construído pelo candidato Aécio Neves, quando ainda Governador de Minas Gerais. A mídia é alimentada com informações sobre a construção numa área da família do candidato da oposição. Entre fatos e versões, vale a repetição. O terreno já havia sido desapropriado, o aeroporto fora construído em área pública. A ANAC informa timidamente que o aeroporto não havia sido ainda homologado e o candidato vem a público dizer o que todo mundo já sabe: a ANAC não homologa nada em tempo e que se o usou, o fez inadvertidamente.

E então vem o acidente com Eduardo Campos, numa gelada manhã de quarta-feira. Passagem de frente fria sobre São Paulo e uma aeronave moderníssima se espatifa com o candidato e mais 6 pessoas a bordo em Santos, após uma arremetida.

Muitos meses se passarão até que os investigadores revelem o que se passou naquela manhã. Desprezando-se falhas mecânicas ou atentado (que são realmente pouco prováveis), é certo que as investigações recairão para a análise de procedimentos operacionais. Algo fez com que os tripulantes decidissem abandonar o primeiro procedimento de aproximação e, ao invés de ascender, caíram. O voo acabou numa cratera de 7 metros de diâmetro, 4 de profundidade.

Uma investigação de acidente aeronáutico é objetiva, foca-se no fato. Essa é sua função.

Mas a proporção do evento pede mais do que só uma investigação técnica, factual. Há reflexões a serem feitas, se a ideia é não desistir do Brasil e da nossa Aviação.

O que faz da Aviação brasileira um meio para que uma tragédia dessa envergadura, com essas consequências, possa acontecer?

Por que, no Brasil, hoje em dia, alguém que decola do Rio de Janeiro para um aeroporto na Grande São Paulo, sede do maior porto do país, com uma aeronave de muitos milhões de dólares, devidamente homologada e tripulada, com o que há de mais sofisticado em termos tecnológicos, corre o risco de morrer num desastre aéreo dessas proporções?

Será que a infra-estrutura aeroportuária, de navegação e controle do espaço aéreo, disponível para acesso aéreo ao mais importante nó intermodal do Brasil não tem nada a ver com esse acidente? Realmente achamos mera casualidade o fato de um acidente desse porte - que poderia ter sido muito mais grave se a aeronave tivesse caído sobre prédios, avenidas movimentadas, escolas ou hospital - ocorrer quando uma aeronave desse tipo tentava pousar num dia de chuva fraca, com alguma restrição de visibilidade e teto relativamente baixo?

Por que pilotos experientes, numa aeronave moderníssima, que cruza céus do mundo inteiro pousando sob neve, gelo e condições meteorológicas muito mais adversas do que as daquela gelada quarta-feira, podem ter tomado decisões que acabaram nessa tragédia?

Como funciona o dia-a-dia, hoje, no Brasil, de quem como essas pessoas depende da aviação executiva para se deslocar com mais eficiência? O que pensa um piloto brasileiro, hoje, sobre o uso do espaço aéreo e dos seus aeroportos? O que o Estado brasileiro tem feito para oferecer meios de treinamento para os seus aviadores? O que as autoridades têm feito para colocar a disposição da aviação tecnologias de navegação que já são corriqueiras no mundo inteiro? Por que uma aeronave que está apta a pousar praticamente sem visibilidade alguma, em qualquer lugar do mundo, no Brasil de hoje corre esse tipo de risco ao usar um dos aeroportos da maior metrópole do hemisfério Sul?

A Aviação, que já estava na pauta dessas eleições, deu causa ao evento mais relevante desse processo político. Algo que para além da tragédia humana, cria inflexões históricas incalculáveis.

Será que a gestão da aviação brasileira não tem nada a ver com essa tragédia?

Para quem, como Eduardo Campos, não quer desistir do Brasil nem da sua Aviação, poderia começar ajudando a responder essas perguntas.

%d blogueiros gostam disto:
Pular para a barra de ferramentas